quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Hoje




"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem, cada um como é."

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ausência


Meu pai chegou por volta das seis da manhã em casa. Alguns minutos antes, havia me ligado: "Espere pelo pior". Entrou no quarto. "Pode levantar". "Por quê?"

Entrei na casa. Sobre a mesa de jantar, inúmeras caixas de remédio. Quatro de "tarja preta". Um copo com água pela metade, várias embalagens de remédio abertas, algumas sobre a mesa e outras espalhadas dentro de uma mala. Perto do microondas, uma revista desatualizada, cuja principal matéria era noticiada na capa: "O futuro que você vai viver". Tão irônica coincidência. Fui para o quarto, a cama desarrumada. Meu pai fazia os telefonemas, perto da mesa da cozinha. Minha mãe procurava na agenda dele os números de familiares que receberiam o telefonema.

A vida é uma coisa tão frágil, tão delicada. Escorrega pelas mãos da gente, como grãos de areia. Passa rápido e podemos acabar com ela tão fácil. E quando vai assim, inesperadamente, é um choque.... a tal da "ficha" não cai. E é muito doloroso.
Só me resta dizer o que nunca disse: Eu o adoro, vou morrer de saudades. O cara que fazia piadinhas nos enterros, na hora do jantar, que tinha uma bicicleta que ele pintou num azul ridículo, que me emprestava livros (principalmente o super Aurélio dele), que esclarecia minhas dúvidas sobre o cristianismo, a ditadura militar.... o cara de quem meu pai e eu herdamos o cabelo preto. O cara de quem herdei o hábito de ler, e que me deu meu primeiro livro na vida. Um cara que me ensinou MUITO, e que poderia ter ensinado ainda mais. Mas parece que ele concluiu que já era o bastante.

As palavras passam flutuando pela minha mente, e esse ar gelado de fim de outono parece fazê-las sumirem. A tranqüilidade não pode ser adquirida com remédios, o sono não pode vir com remédios. Mas eles podem tirá-las de nós. O que fica? A dor, a lembrança.... e a lição de que a vida pode sair voando com o vento frio de junho.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Going Back

"I think I’m going back....
To the things I learnt so well in my youth
I think I’m returning to
Those days when I was young enough to know the truth
Now there are no games
To only pass the time
No more colouring books
No christmas bells to chime
But thinking young and growing older is no sin
And I can’t play the game of life to win

I can recall a time
When I wasn’t ashamed to reach out to a friend
And now I think I’ve got
A lot more than just my toys to lend
Now there’s more to do
Than watch my sailboat glide
And every day can be
My magic carpet ride
And I can play hide and seek with my fears
And live my days instead of counting my years

Then everyone debates
The true reality
I’d rather see the world
The way it used to be
A little bit of freedom’s all we lack
So catch me if you can....
I’m going back...."

Tudo bem. Eu havia prometido a mim mesma, quando dei início a este bloco virtual de anotações muito reais, que não escreveria nada relacionado ao Queen. Afinal, eles já estão fortemente incrustados na minha mente e eu diria que até em meu sangue, além do título, do pseudônimo e do endereço desta página serem nomes de músicas deles. O problema é que essa canção meio que "caiu do céu", hoje, e tanto a letra quanto a versão que me encantou coincidiram com minha vida no momento, assim como as poucas músicas que já estão escritas aqui, sem contar que eu ando muito envolvida com eles, aquela coisa "cósmica" (só para combinar com o contexto) e que se tornou muito real. Hoje vivi e contei uma nostalgia muito doce, algo que me fez realmente bem.... algo que, assim como em uma canção do Queen me faz constatar que "the bad things in life were so few/these days are all gone now but some things remain/ when I look, and I find - no change".
E eu estou voltando, independentemente do que voltar signifique.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O mundo é um moinho


"Ainda é cedo, amor....
Mal começaste a conhecer a vida,
Já anuncias a hora da partida,
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar....

Preste atenção, querida....
Embora eu saiba que estás resolvida,
Em cada esquina cai um pouco a tua vida,
Em pouco tempo não serás mais o que és....

Ouça-me bem, amor....
Preste atenção, o mundo é um moinho!
Vai triturar seus sonhos tão mesquinhos,
Vai reduzir as ilusões a pó....

Preste atenção, querida....
Em cada amor tu herdarás só o cinismo,
Quando notares estás à beira do abismo....
Abismo que cavastes com teus pés...."

(Cartola. Mas não há quem dê tanto significado a ela senão Cazuza.)


sábado, 10 de janeiro de 2009

Todo o céu

Os olhos, assim como as mãos, são sempre as primeiras coisas que me chamam a atenção nas pessoas, e até em mim mesma. Mas as mãos são assunto para outro dia, hoje quero falar de olhos, ultimamente eles não têm saído de meu pensamento. Detesto ver meu reflexo em espelhos, mas nunca os evito para poder ver meus olhos, sempre com uma pesada maquiagem contornando. Um exagero, mas eu não gosto de ficar sem ela. Não me sinto uma imagem fiel à pessoa que sou sem a pintura preta, e, quando a apago, não me reconheço mais. Já se tornou parte de mim. Tentei e ainda tento inúmeras vezes passar muitos dias sem ela, mas meu olhar é apagado, devido à cor da íris. Há sempre tanta coisa se passando em minha mente e no mundo que a cerca! Tenho sempre os olhos focados nisso, mas, mesmo assim, eles parecem tão pouco concentrados, tão vazios. Modéstia à parte, eles não são. Gosto de fazer com que pareçam tão vivos quanto realmente são. É uma imagem que choca, mas faz com que as pessoas percebam a presença deles e o que representam, o que fazem.
Gosto de olhos em geral. Bem dizem que são a janela da alma, dá para conhecer perfeitamente alguém através dos olhos. E ah, não adianta dizer que exista "olhar misterioso". Às vezes apenas não entendemos tudo o que se passa por trás deles, mas eles sempre dizem tudo. São tão expressivos. Alguns parecem estrelas, e eu adoro admirá-las, me perco dentro de alguns olhares.... É um paradoxo, mas preciso que entendam isso.... preciso que saibam que meus olhos guardam muito, agem muito.... mas nunca que os conheçam o bastante para saber quem está atrás deles. Não é fuga, talvez uma imparcialidade. Não é necessário me conhecer.

Observo os olhos das pessoas a fundo, mas rápido o suficiente para que os meus não sejam notados.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Adiante

"Eu quase posso falar
A minha vida é que grita
Emprenha e se reproduz
Na velocidade da luz
A cor do sol me compõe
O mar azul me dissolve
A equação me propõe
Computador me resolve", como já diziam Os Mutantes.... coisa de uns 40 anos atrás.
O progresso é feio, muito feio. E é só o que eu tenho a dizer.

sábado, 25 de outubro de 2008

Pequenos tesouros (dedicado à Ninita)

É muito bacana a forma como nos apegamos a algumas coisas, nessa vida. E eu, particularmente, me apego muito mais facilmente a objetos do que a pessoas, em especial aqueles que têm uma história. Sou uma verdadeira ratazana de sebo, sempre em busca de "novos" livros e discos para minhas coleções, e cada dia me surpreendendo mais com as belezas que encontro.
Como meio mundo já fez, assisti àquele filme "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", e me encantei com alguns detalhes da história, principalmente quando a protagonista encontra uma caixinha de antigos brinquedos e outros cacos da infância de alguém que viveu em sua casa, anos antes, achado que dá um rumo ao filme e muda o destino da garota. Compreendo perfeitamente a sensação dela quando encontra a caixinha, pois também sou uma grande colecionadora de "pequenos tesouros".
Como ia dizendo, minhas andanças por sebos sempre me trazem alguma coisa interessante, mesmo que sejam apenas pensamentos. Sem dúvidas, a minha aquisição mais bacana foi um certo livro.
Estava em um sebo que havia aberto na cidade pouco tempo antes, e fuçando entre os livros de arte achei este guia da Basílica de S. Pedro, no Vaticano. Uma verdadeira raridade por si só, todo em italiano cuja edição (a quinta) data de 1947. Io non parlo italiano, mas fiz questão de comprá-lo assim mesmo, pois os idiomas latinos são muito parecidos e fáceis de entender. Dando aquela olhadinha nele, encontrei dois papéis soltos entre as páginas. Um deles era um panfleto, e o outro, uma fotografia.
O panfleto nada mais é que um informativo, algo como um guia, também, dos castelos em Vale de Loire, na França. As datas indicadas nele são todas do ano de 1957, portanto, dez anos depois da edição do guia da Basílica. Trouxe consigo um pedacinho de história, à caneta: "Vi todos estes castelos do Vale do Loire. Ninita". É incrível observar todas as fotos imaginando quem poderia ter passado lá, ou a beleza e magnitude dos castelos, e também pensar em quem é a pessoa que precisou de um guia da Basílica no Vaticano. Fiquei me perguntando, por um tempo, quem seria Ninita.
Então dediquei alguns momentos à fotografia, o retrato de uma mulher. Adoro fotografias antigas, dessas em papéis bem firmes, sempre feitas com uma iluminação maravilhosa e belas poses imponentes. Na parte inferior, com uma letra comprida e difícil de ser lida, há uma frase cuja última palavra mal coube no papel e sequer pode ser lida, mas que começa com "A simpática Senhora D. Ninita com um lado(?) da ....(?)". Será que alguém vendeu a um sebo as lembranças de viagem e um retrato de Ninita? As caligrafias são muito parecidas. Será que não teria sido a própria Ninita quem vendeu um pedacinho de seu passado para um sebo? Sou capaz de passar horas observando a imagem e me perguntando tantas coisas a respeito dela.
Ao mesmo tempo, tenho a sensação de que foi o abandono de uma parte da vida dela, mas também me sinto cúmplice de suas memórias. É fascinante. Onde estará Ninita agora? Ainda é viva? Ainda viaja? Será que o livro foi vendido com seu consentimento, ou foi uma brincadeira dela?
É, Ninita. Você é o mistério mais incrível da minha vida.

À minha pequena coleção de tesouros pessoais também se juntaram novos itens, recentemente. Um tio-avô de meu pai, se não me engano, morreu há alguns poucos anos, e, tendo apenas uma filha, deixou as máquinas e ferramentas que usou ao longo de toda a vida para ele, como herança. Vieram para o galpão de casa máquinas imensas, várias caixas de ferramentas, um violão e alguns barris.... bom, não exatamente barris.... algo como tonéis, latas grandes, fechadas com tampas de madeira. Pesadíssimas, cheias de ferramentas de metalurgia e coisas de dentista.
Como não poderia deixar de ser, meu pai não deixa ninguém mexer nelas, afinal muito pode se perder caso não sejamos cuidadosos. E mesmo assim, ele sequer se arrisca a dedicar mais tempo a elas. Porém, devo lembrar que tenho um irmão mais novo e mais curioso, que vive aprontando alguma coisa no galpão e brincando com as várias ferramentas, cons ou destruindo algo. Recentemente, deu para fuçar o tal barril, e entrou em casa felicíssimo trazendo objetos redondinhos em mãos. Enquanto minha mãe via alguns, ele me mostrava outros, e fiquei realmente emocionada quando vi que se tratava de relógios de bolso! Aqueles bem antigos, de corda, que vemos em alguns filmes.... e fazem o famoso "tic tac". Depois de atazanarmos nossa mãe o suficiente, ela permitiu que ficássemos com os relógios - papai nem sonha que estão em nossas mãos -, caso fôssemos cuidadosos. São lindos, magníficos. Esse tio trabalhou toda a vida com máquinas, fazia e consertava relógios. A princípio, achamos que foram feitos por ele, mas após algumas observações e pesquisas pela internet, constatamos que são todos suíços, e, evidentemente, extremamente antigos. Verdadeiras relíquias. Deviam ter sido levados pelos donos para consertar, ou mesmo foram trocados por relógios mais modernos, de pulso. Quando meu irmão os trouxe para casa, apenas o maior não funcionava (há mais um, igual ao que tem corrente, de aço inoxidável), mas logo o pequeno com números romanos fez um ruído estranho e parou também. Os mecanismos deles são muito delicados e antigos. Inclusive, no mesmo barril, há várias caixinhas cheias dessas peças, novinhas e intactas, algumas na embalagem original. Todas funcionam. O tio era extremamente cuidadoso com todas suas ferramentas, mas, infelizmente, nem tudo sobrevive ao tempo.

Mas meu tesouro mais querido, talvez menos relevante historicamente, é um de quando eu era recém-nascida. Foi encontrado na casa de minha avó, há pouco tempo, e minha mãe trouxe para mim. É, possivelmente, uma grande bobagem, mas uma das poucas coisas que me fazem largar temporariamente as idéias racionais e perceber que sou humana o bastante para me emocionar com minha própria vida. Sempre fui chata o suficiente para me incomodar até com minha infância, e também com alguns tolos mimos para bebês. Achava meio bobo minha mãe ter guardado a pulseirinha do hospital, o papel onde marcaram meus pés de bebê e até uma mechinha do meu primeiro corte de cabelo (que, devido às circunstâncias atuais, é realmente um treco incrível....). E eu talvez venha a me arrepender de dizer isso, e queira apagar posteriormente, mas alguma coisa nessa pequena lembrança me faz mais feliz. Algumas memórias acabam se tornando verdadeiros tesouros para nós, e nem mesmo sabemos explicar os motivos. Certas coisas ainda são capazes de me emocionar. E é isso.
P.S.: "Memories, my memories
How long can you stay
To haunt my days"
Brian May, 1977