
Meu pai chegou por volta das seis da manhã em casa. Alguns minutos antes, havia me ligado: "Espere pelo pior". Entrou no quarto. "Pode levantar". "Por quê?"
Entrei na casa. Sobre a mesa de jantar, inúmeras caixas de remédio. Quatro de "tarja preta". Um copo com água pela metade, várias embalagens de remédio abertas, algumas sobre a mesa e outras espalhadas dentro de uma mala. Perto do microondas, uma revista desatualizada, cuja principal matéria era noticiada na capa: "O futuro que você vai viver". Tão irônica coincidência. Fui para o quarto, a cama desarrumada. Meu pai fazia os telefonemas, perto da mesa da cozinha. Minha mãe procurava na agenda dele os números de familiares que receberiam o telefonema.
A vida é uma coisa tão frágil, tão delicada. Escorrega pelas mãos da gente, como grãos de areia. Passa rápido e podemos acabar com ela tão fácil. E quando vai assim, inesperadamente, é um choque.... a tal da "ficha" não cai. E é muito doloroso.
Só me resta dizer o que nunca disse: Eu o adoro, vou morrer de saudades. O cara que fazia piadinhas nos enterros, na hora do jantar, que tinha uma bicicleta que ele pintou num azul ridículo, que me emprestava livros (principalmente o super Aurélio dele), que esclarecia minhas dúvidas sobre o cristianismo, a ditadura militar.... o cara de quem meu pai e eu herdamos o cabelo preto. O cara de quem herdei o hábito de ler, e que me deu meu primeiro livro na vida. Um cara que me ensinou MUITO, e que poderia ter ensinado ainda mais. Mas parece que ele concluiu que já era o bastante.
As palavras passam flutuando pela minha mente, e esse ar gelado de fim de outono parece fazê-las sumirem. A tranqüilidade não pode ser adquirida com remédios, o sono não pode vir com remédios. Mas eles podem tirá-las de nós. O que fica? A dor, a lembrança.... e a lição de que a vida pode sair voando com o vento frio de junho.
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