É muito
bacana a forma como nos apegamos a algumas coisas, nessa vida. E eu, particularmente, me apego muito mais facilmente a
objetos do que a pessoas, em especial aqueles que têm uma história. Sou uma verdadeira ratazana de sebo, sempre em busca de "novos" livros e discos para minhas
coleções, e cada dia me surpreendendo mais com as belezas que encontro.

Como meio mundo já fez, assisti àquele filme "O Fabuloso Destino de
Amélie Poulain", e me encantei com alguns detalhes da história, principalmente quando a protagonista encontra uma caixinha de antigos brinquedos e outros cacos da infância de alguém que viveu em sua casa, anos antes, achado que dá um rumo ao filme e muda o destino da garota. Compreendo perfeitamente a sensação dela quando encontra a caixinha, pois também sou uma grande
colecionadora de "pequenos tesouros".
Como ia dizendo, minhas andanças por
sebos sempre me trazem alguma coisa interessante, mesmo que sejam apenas pensamentos. Sem dúvidas, a minha aquisição mais
bacana foi um certo livro.
Estava em um sebo que havia aberto na cidade pouco tempo antes, e
fuçando entre os livros de arte achei este guia da Basílica de S. Pedro, no Vaticano. Uma verdadeira raridade por si só, todo em italiano cuja edição (a quinta) data de 1947.
Io non parlo italiano, mas fiz questão de comprá-lo assim mesmo, pois os idiomas latinos são muito parecidos e fáceis de entender. Dando aquela
olhadinha nele, encontrei dois papéis soltos entre as páginas. Um deles era um panfleto, e o outro, uma fotografia.

O panfleto nada mais é que um informativo, algo como um guia, também, dos castelos em Vale de Loire, na França. As datas indicadas nele são todas do ano de 1957, portanto, dez anos depois da edição do guia da Basílica. Trouxe consigo um pedacinho de história, à caneta: "Vi todos estes castelos do Vale do Loire.
Ninita". É incrível observar todas as fotos imaginando quem poderia ter passado lá, ou a beleza e magnitude dos castelos, e também pensar em quem é a pessoa que precisou de um guia da Basílica no Vaticano. Fiquei me perguntando, por um tempo, quem seria
Ninita.

Então dediquei alguns momentos à fotografia, o retrato de uma mulher. Adoro fotografias antigas, dessas em papéis bem firmes, sempre feitas com uma iluminação maravilhosa e belas poses imponentes. Na parte inferior, com uma letra comprida e difícil de ser lida, há uma frase cuja última palavra mal coube no papel e sequer pode ser lida, mas que começa com "A simpática Senhora D.
Ninita com um lado(?) da ....(?)". Será que alguém vendeu a um sebo as lembranças de viagem e um retrato de
Ninita? As caligrafias são muito parecidas. Será que não teria sido a própria
Ninita quem vendeu um pedacinho de seu passado para um sebo? Sou capaz de passar horas observando a imagem e me perguntando tantas coisas a respeito dela.

Ao mesmo tempo, tenho a sensação de que foi o abandono de uma parte da vida dela, mas também me sinto cúmplice de suas memórias. É fascinante. Onde estará
Ninita agora? Ainda é viva? Ainda viaja? Será que o livro foi vendido com seu consentimento, ou foi uma brincadeira dela?
É,
Ninita. Você é o mistério mais incrível da minha vida.
À minha pequena
coleção de tesouros pessoais também se juntaram novos itens, recentemente. Um tio-avô de meu pai, se não me engano, morreu há alguns poucos anos, e, tendo apenas uma filha, deixou as máquinas e ferramentas que usou ao longo de toda a vida para ele, como herança. Vieram para o
galpão de casa máquinas imensas, várias caixas de ferramentas, um violão e alguns barris.... bom, não
exatamente barris.... algo como tonéis, latas grandes, fechadas com tampas de madeira.
Pesadíssimas, cheias de ferramentas de metalurgia e coisas de dentista.
Como não poderia deixar de ser, meu pai não deixa ninguém mexer nelas, afinal muito pode se perder caso não sejamos cuidadosos. E mesmo assim, ele sequer se arrisca a dedicar mais tempo a elas. Porém, devo lembrar que tenho um irmão mais novo e mais curioso, que vive aprontando alguma coisa no
galpão e brincando com as várias ferramentas,
cons ou destruindo algo. Recentemente, deu para
fuçar o tal barril, e entrou em casa felicíssimo trazendo
objetos redondinhos em mãos. Enquanto minha mãe via alguns, ele me mostrava outros, e fiquei realmente emocionada quando vi que se tratava de relógios de bolso! Aqueles bem antigos, de corda, que vemos em alguns filmes.... e fazem o famoso "
tic tac".

Depois de atazanarmos nossa mãe o suficiente, ela permitiu que ficássemos com os relógios - papai nem sonha que estão em nossas mãos -, caso fôssemos cuidadosos. São lindos, magníficos. Esse tio trabalhou toda a vida com máquinas, fazia e consertava relógios. A princípio, achamos que foram feitos por ele, mas após algumas observações e pesquisas pela
internet, constatamos que são todos suíços, e, evidentemente, extremamente antigos. Verdadeiras relíquias. Deviam ter sido levados pelos donos para consertar, ou mesmo foram trocados por relógios mais modernos, de pulso. Quando meu irmão os trouxe para casa, apenas o maior não funcionava (há mais um, igual ao que tem corrente, de aço inoxidável), mas logo o pequeno com números romanos fez um ruído estranho e parou também.

Os mecanismos deles são muito delicados e antigos. Inclusive, no mesmo barril, há várias caixinhas cheias dessas peças,
novinhas e intactas, algumas na embalagem original. Todas funcionam. O tio era extremamente cuidadoso com todas suas ferramentas, mas, infelizmente, nem tudo sobrevive ao tempo.
Mas meu tesouro mais querido, talvez menos relevante historicamente, é um de quando eu era
recém-nascida. Foi encontrado na casa de minha avó, há pouco tempo, e minha mãe trouxe para mim. É, possivelmente, uma grande bobagem, mas uma das poucas coisas que me fazem largar temporariamente as
idéias racionais e perceber que sou humana o bastante para me emocionar com minha própria vida. Sempre fui chata o suficiente para me incomodar até com minha infância, e também com alguns tolos mimos para
bebês. Achava meio bobo minha mãe ter guardado a
pulseirinha do hospital, o papel onde marcaram meus pés de bebê e até uma
mechinha do meu primeiro corte de cabelo (que, devido às circunstâncias
atuais, é realmente um
treco incrível....). E eu talvez venha a me arrepender de dizer isso, e queira apagar posteriormente, mas alguma coisa nessa pequena lembrança me faz mais feliz. Algumas memórias acabam se tornando verdadeiros tesouros para nós, e nem mesmo sabemos explicar os motivos. Certas coisas ainda são capazes de me emocionar. E é isso.

P.S.: "Memories,
my memories
How long can you stayTo
haunt my days"
Brian May, 1977